Uma análise (tardia) de Wandinha


A Família Addams é uma franquia meio difícil de se adaptar, até porque o público espera algo grande.

No começo veio a famosa série em preto-e-branco que até hoje marca a memória de muita gente (e que é melhor que Dark Shadows por não perder tempo com enrolação novelesca).

Depois os personagens foram alguns dos vários convidados de uma temporada do Scooby-Doo até ganharem sua própria série animada.

Então vieram os filmes, que moldaram a imagem dos Addams como conhecemos hoje.

Depois veio o remake da série clássica que passava no Angel Mix... mas quanto menos falarmos dessa série, melhor.

E anos depois veio Wandinha, série da Netflix com produção de Tim Burton (que há anos estava envolvido numa adaptação em stop motion que nunca veio por motivos).

Será que essa série é boa ou merece sucumbir às chamas do inferno?

É o que veremos agora.

SNAP SNAP!


A série gira em torno de Wandinha Addams (Jenna Ortega) que, após alguns "percalços" na sua antiga escola, é transferida para a Academia Nunca Mais, onde é destinada a conviver com os Excluídos, figuras que possuem poderes fantásticos e que são divididas em classes sociais.

Ela logo faz amizade com Enid Sinclair (Emma Myers), a típica menina empolgadona com quem já estudamos em algum momento de nossas vidas e que possui o grande dom da licantropia, porém ainda não sabe como trazê-lo à tona, e também com a abelha rainha Bianca Barclay (Joy Sunday). Não por acaso, ela acaba envolvida em uma série de assassinatos misteriosos que acontecem em Jericó, cidade fundada por peregrinos cuja história do passado envolve uma ancestral de Wandinha.

O enredo não ganha nenhum Oscar, mas sabe como costurar sem deixar nenhuma ponta solta. Indo do ponto A ao ponto B, a trama se desenrola e dá várias voltas, apesar de ter aquelas papagaiadas típicas de uma produção da Netflix. Tim Burton dirigiu poucos episódios, mas mesmo assim sua marca está muito presente - ainda que de forma bem sutil desta vez. Não há tanto uso de espirais ou estilos inspirados no expressionismo Alemão (cujo estilo era o favorito do diretor), mas não compromete tanto assim o andamento da série. Também não há tantas referências à lore dos Addams - com exceção da Diretora Weems, cujo sobrenome divide com uma babá que aparecia nas tirinhas - mas, como eu disse, tais ausências não comprometem tanto o andamento da narrativa.

O elenco é um espetáculo a parte. Jenna Ortega entrega uma Wandinha séria, mas que não hesita antes de falar o que pensa, independente de como as pessoas vão se sentir. Além de ter uma habilidade de prever o passado e futuro, sua Wandinha também tem uma forte paixão por mistérios e gosta de ir a fundo para ver o desfecho.
Emma Myers também faz um bom trabalho. O carisma natural da atriz faz com que sua Enid Sinclair não seja somente um amontoado de clichês que tornam sua personagem genérica e unidimensional, em vez disso fazendo a personagem ser naturalmente adorável e realmente engraçada.

Mas quem rouba mesmo a cena é o Gomez Addams de Luis Guzmán. Mesmo aparecendo pouco na série, ele continua sendo um homem que ama a família (principalmente a Mortícia, interpretada majestosamente por Catherine Zeta-Jones) e morre de amores por Wandinha. Muita gente teve birra com a escalação de Guzmán no papel, uma vez que o público estava acostumado com o Raul Julia no papel, mas convenhamos que o Gomez original dos quadrinhos não era esse poço de beleza que todo mundo idolatra por causa dos filmes.


Agora que elogiei demais a série, vamos ao elefante na sala (e não, não tô falando da sua mãe): o suposto "queerbaiting" que alguns espectadores com muito tempo livre alegaram que a série tinha.

Essa suposição se deu ao fato de que os espectadores interpretaram a personalidade extrovertida e grudenta da Enid como uma "insinuação homossexual", apesar que em momento algum eu vi isso.

E o problema é claro: as pessoas que assistiram a série são as pessoas que não acreditam que duas pessoas do mesmo sexo (ou do sexo oposto) possam ser amigas, assim sendo pra elas essas pessoas se comem entre quatro paredes a qualquer hora e em qualquer lugar e fim de papo. E isso destrói qualquer narrativa, pois você não pode criar mais nada que envolva amizade porque alguém que é frustrado na vida que nunca teve amigos ou um parceiro sexual interpreta qualquer interação social a algo que leva a sexo.

Claro que essas pessoas ignoraram o fato que ambas as personagens eram menores de idade (ao menos na primeira temporada) e já mostraram mais de uma vez gostarem mais de meninos do que de meninas, mas do que eu sei, né?


Wandinha é a melhor adaptação de uma criação do Charles Addams que já assisti. É sombria, tem reviravoltas e não inventa mais do que o bom senso permite.

Infelizmente alguns "shippers" com sérias crises existenciais também tomaram conta de qualquer discussão saudável que você queira ter sobre a série, mas eu recomendo assistir a série longe de qualquer fã ou fandom pois eles tem a proeza de destruir qualquer vontade de consumir algo.

A sua sanidade vai te agradecer depois se seguir meu conselho, vai por mim.

Até a próxima, minha gente!

Ficha técnica
Wandinha (Wednesday)
Direção: Tim Burton (e mais uma penca de outros diretores)
Elenco: Jenna Ortega, Emma Myers, Joy Sunday, Gwendoline Christie, Luis Guzmán, Catherine Zeta-Jones, Percy Hynes White, Jamie McShane, Victor Dorobantu, Hunter Doohan, Fred Armisen, Isaac Ordonez, George Burcea

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